Imprensa

“Estamos mesmo a mudar o mundo”: estas crianças aprendem o alfabeto de formas diferentes (e inclusivas)

Desde 2015, a metodologia EKUI, que combina quatro formas de aprender o alfabeto – incluindo língua gestual e braille – já chegou a mais de 145 mil crianças. Graças a este recurso, aprendem duas vezes mais e desenvolvem a sua empatia

Aprender a língua portuguesa, língua gestual e braille ao mesmo tempo é possível graças à metodologia EKUI, única no mundo. A inclusão e empatia são as palavras base de um processo que desenvolve uma experiência multissensorial e divertida, em que as crianças aprendem o alfabeto e não só.

Numa sala de aula, havia uma criança com paralisia cerebral, com a qual o professor começou a aplicar metodologia EKUI. “Ele começou a aprender os sons das letras e ia comunicando através de sons das letras. Dizia B e já sabiam que era brincar, ou dizia BB e sabiam que era beber”, descreve Celmira Macedo, fundadora desta ferramenta. Nos primeiros meses, este aluno ou ficava sozinho na sala ou era levado pelo funcionário para o recreio. Pouco tempo depois, “eram as crianças que lhe empurravam a cadeira e já falavam todas com ele” porque também tinham curiosidade e foram aprendendo com esta ferramenta.

“A metodologia que, inicialmente, foi pensada para uns, neste momento é trabalhada com todos. Crianças com e sem dificuldades de aprendizagem aprendem juntas”, afirma. A EKUI une a grafia, os sons da fala, a língua gestual e o braille para que as crianças do pré-escolar e primeiro ciclo aprendam o alfabeto. É uma forma de aprendizagem multissensorial e inclusiva, baseada na neurociência, em que através da brincadeira a criança associa o som de cada letra à grafia escrita e em braille e ao gesto.

A história da EKUI começa no ano de 2000 com Daniel, um aluno de Celmira Macedo. “Estava a trabalhar com ele já há um ano e ele não conseguia aprender a ler e a escrever, mas eu achava que ele tinha capacidades. O problema estava certamente em mim”, recorda. Decidiu integrar a língua gestual, “sem a intenção de ensinar”, e passado algum tempo Daniel começou a reconhecer os gestos e associá-los às palavras. Foi nesse momento que a professora de educação especial percebeu o potencial de integrar vários métodos inclusivos na alfabetização.

Celmira Macedo explica: “Quando eu explico a uma criança o que é um M, se eu nunca lhe mostrar o som, ela vai andar à procura deste som nas letras durante toda a vida”. A metodologia usa a consciência fonológica para mostrar que sons são produzidos com a garganta ou com o nariz, por exemplo, e associa-os à letra em questão.

objetivo é trabalhar as áreas cognitivas que “mais tarde vão impactar a aprendizagem”, como a atenção, a memória, a perceção, o processamento linguístico e as competências socio-emocionais. A fundadora da EKUI lembra ainda que através do braille é possível “trabalhar a matemática com os pontos da célula braile”, além de que há “crianças que para fazer V, de vaca, usam a brincadeira das mãos para ir ativar outro tipo de memória e, [consequentemente], reduzem os erros da escrita”.

Não combatemos o insucesso escolar, não concordamos com essa visão. Concordamos com a visão de que podemos muitas vezes evitar dificuldades de aprendizagem que possam resultar em sucesso escolar”, afirma.

O equilíbrio das relações dentro da sala é uma das maiores vantagens desta metodologia. “Uma criança de meios desfavorecidos tem dois anos de atraso de aprendizagens relativamente aos seus partes, e neste caso, com o EKUI, estão em igualdade de circunstâncias. Eu não sei braille, tu não sabes língua gestual, então aprendemos ao mesmo tempo”, diz Celmira Macedo.

Um relatório de impacto realizado pela Universidade do Porto e a Universidade da Beira Interior mostrou ainda que as crianças conseguem aprender duas vezes e meio mais rápido do que com metodologias tradicionais de ensino. Enquanto nas atitudes de inclusão, de empatia, de autoestima, houve um aumento de quase duas vezes relativamente a grupos de controle. Também quase 70% dos professores que experimentaram integrar a EKUI mudaram para práticas mais eficientes e mais inclusivas.

Algo que os professores nos têm dito muito é que já não viam há muitos anos as crianças tão motivadas para aprender”, revela. Desde 2015, esta metodologia já impactou mais de 145 mil crianças e está implementada oficialmente em 1200 escolas. Celmira Macedo destaca ainda que, embora esta metodologia tenha sido pensada para o ensino pré-escolar e primeiro ciclo, também pode ser aplicada em adultos, com os quais têm “muito bons resultados”.

O espírito de inclusão e empatia da EKUI, um dos principais pilares, revela-se nos vários alunos que ensinam aos pais em casa braille ou língua gestual, o que cria “uma dinâmica muito grande no sentido de comunidade, em que as pessoas vão crescendo juntas”. Recentemente, após usar este recurso, um jovem de 12 anos disse isto: “Eu pensei que nós nem podíamos brincar com as pessoas cegas, que elas nem eram como nós, mas afinal, são pessoas como as outras”. “Eu fiquei: uau, estamos mesmo a mudar o mundo”, confessa Celmira Macedo.

A ajuda imprescindível dos fundos comunitários

O projeto EKUI recebeu apoio através do programa Portugal 2020 em cerca de 62 mil euros, dos quais 52 mil euros provêm do Fundo Social Europeu, para desenvolver as cartas de alfabeto. Também contou com apoio do Portugal Inovação Social para desenvolver um projeto-piloto, estabelecer outra iniciativa em territórios de baixa densidade e, mais recentemente, num projeto dedicado a crianças em situação de vulnerabilidade.

Celmira Macedo afirma que o apoio “foi determinante e foi estratégico” ao permitir concretizar vários passos na implementação do EKUI e perceber de que forma era eficiente em diferentes contextos. Graças a este apoio, resta apenas a internacionalização, que “é o próximo passo a seguir”.

Fonte: “Estamos mesmo a mudar o mundo”: estas crianças aprendem o alfabeto de formas diferentes (e inclusivas) – Expresso